É um silêncio que chega após os ruídos de dentro. Porque dentro de mim tem chegado barulho… muito barulho.
Informações, opiniões, sugestões, imagens, gráficos, notícias, por todos os lados.
Alguns dizem o que fazer, outros pedem para manter a calma, outras pessoas lembram das famílias que não tem condições básicas para manter a calma, outros nos mostram a importância de uma política abrangente, justa e efetiva, que nos falta. Gente, isso tudo é legítimo!
Porque a situação não vai melhorar por conta do nosso desespero, então calma sim. Porque a desigualdade social é um problema histórico e mais preocupante ainda nesse momento, então aflição sim. Porque existem decisões e discursos políticos que estão desconsiderando a necessidade de proteção e assistência do Estado, então revolta sim.
Tudo isso pode furtar a nossa paz interna, o centramento e a concentração, em diversos momentos. E ok! Não se cobre a estar bem. Porque é novo, porque é um terreno desconhecido, porque estamos aprendendo a andar nesse chão. Só que não será saudável manter-se imerso apenas nesse lugar de muitas vozes. É preciso se resgatar também, se colocar no colo, pensar nas vias de saída, em quem pode se mobilizar junto para garantir direitos, a quem é possível pedir ajuda, ou como é possível ajudar quem está em um contexto precário.
Cada um vai até onde pode ir. Algumas pessoas vão acreditar em um fenômeno divino, outras vão olhar para o lado bom, outras focarão nas partes negativas, alguns desacreditarão. Não podemos perder de vista que cada indivíduo terá a sua forma de contato com a realidade.
Que todas essas maneiras de olhar para isso, possam acontecer, mas que sejam feitas dentro de casa, considerando a responsabilidade social. Cada um no seu tempo, cada um com suas estratégias de enfrentamento, dentro de casa.
Com esse texto, quero trazer que é possível transitarmos por entre esses modos de contato. Passar um tempo com as notícias e os barulhos, passar um tempo sentindo compaixão pela dor do outro, passar um tempo articulando propostas para o que deve mudar em termos políticos e sociais. Passar um tempo consigo, passar um tempo com o que lhe conforta, ou com o que lhe deixa desconfortável, passar um tempo com o vazio. Se acolhendo.
Inclusive, acolhimento me parece ser a palavra que vai nortear essa fase. Acolhimento de si, em seus processos e oscilações. Acolhimento do outro, em sua singularidade e dor.
"Não tenho ensinamentos a transmitir. Tomo aquele que me ouve pela mão e o levo até a janela. Abro-a e aponto para fora. Não tenho ensinamento algum, mas conduzo um diálogo." | Martin Buber