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29julho

A clínica e o barco

Há algum tempo, caminhando em direção à academia, para mais um dia de movimento, pensava sobre como a clínica tem me afetado não só no fato de que me leva a fazer contato com as situações inacabadas que estão na minha mochila existencial, aguardando por um olhar, um tempo meu, uma escuta.

Me veio nitidamente que a clínica também me encaminha para notar os lugares onde já estive e que não estou mais, compreendendo de um outro sentir, quando a pessoa em terapia conta o quão difícil é estar localizada ali, o quanto parece que nunca vai ser diferente, o quanto que dá vontade de não falar mais sobre. Nessas horas, minha pele entende. Meus ossos entendem. Meus músculos sabem. O entendimento sai da cabeça e vai para todos os sentidos, como diria Perls.

A clínica gesticula minhas vésperas, o que está em aberto, do que não mais me ocupo.

Pensava sobre tudo isso na breve caminhada, profundamente imersa e distraída, que nem percebi que um senhor se aproximava, caminhando em direção oposta. Me estendeu a mão calmamente e entregou um barco de papel, sem dizer uma palavra sequer, continuando sua rota. Agradeci a entrega inesperada e seguimos nossos caminhos opostos, sem pararmos, sem conversarmos, sem sabermos quem somos, ficando simplesmente com a experiência.

Nos encontramos por um segundo ali e fomos tocados de alguma forma. Dois seres humanos em ato de poesia, no meio dos carros, no meio do dia, no meio das gentes e dos compromissos todos.

Segui pensando, moço.

E o que é a clínica senão encontro?! O que é a clínica senão o desconhecer, senão estar simples e puramente na experiência?! O que é a clínica senão o navegar buscando portos, recepcionando permanências, despedidas, afetações e um não saber se o que estamos dispostos a entregar será recebido e aceito, se será lido de maneira diferente da intenção que tivemos?! O que é a clínica senão espaço de contato com a parte em nós que ainda faz um barco de papel e entrega a uma pessoa desconhecida na rua, desembrutecendo o corpo, suavizando defesas, pondo gentileza no percurso?! O que é a clínica senão uma paragem ou um movimento inabitual, no meio dos carros, do dia, das gentes, de compromissos outros?!

Sigo sentindo.

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"Não tenho ensinamentos a transmitir. Tomo aquele que me ouve pela mão e o levo até a janela. Abro-a e aponto para fora. Não tenho ensinamento algum, mas conduzo um diálogo." | Martin Buber