02março
Relacionamento amoroso é disponibilidade para adentrar a casa do(a) outro(a). É reconhecer que o que se apresenta inicialmente, é uma parte de um todo amplo, e que é preciso tempo e abertura para descobrir a diferença, a dinâmica, as histórias e as necessidades dessa pessoa-casa. Ao mesmo tempo, autorizando que a sua morada também seja vista e visitada, com demora.
Essas relações de intimidade precisam das idas e das vindas. Apenas ir, é se perder de si. Apenas vir, é romper com o sentido de reciprocidade, fundamental para uma saúde relacional.
IR, para contatar, encontrar, construir um “entre”, entregar-se ao universo de um(a) outro(a)-reticências.
VIR, como movimento de retorno para dentro e recordação de quem se é: pessoa de sentidos, de interesses próprios e percursos singulares. Vir é confirmar a unicidade do seu ser, na relação. E é preciso!
De modo geral, relacionar-se é pisar territórios de aprendizagens profundas, que fundam e findam processos diversos.
Adentrar a casa do(a) outro(a) é permitir a bagunça, a necessidade de faxina interna, é sustentar os espelhos colocados diante de nós. É dar passagem para as múltiplas transições e mortes.
Clarissa Pinkola Estes nos convida à poesia, quando recorda que amor é dança entre nascimentos e mortes, e como tal, se manifesta por meio dos ciclos: tempos de vitalidade, tempos de expansão, tempos de recolhimento e de perdas necessárias.
“O que morre?- diz ela – As ilusões, as expectativas, a voracidade de querer tudo, de querer que tudo seja lindo, tudo isso morre.”
E então, Clarissa nos deixa um questionamento inquietante: quão dispostos(as) estamos para tocar o “não belo” em nós e no(a) outro(a)?
Tocando, algo morre, algo nasce. Pequenas reformas ou mudanças de casa. Algo move. Relações potencializam ebulições e olhares para dentro-fora-dentro.
"Não tenho ensinamentos a transmitir. Tomo aquele que me ouve pela mão e o levo até a janela. Abro-a e aponto para fora. Não tenho ensinamento algum, mas conduzo um diálogo." | Martin Buber