24setembro
Tem sido bom, de vez em quando, ficar distante das redes sociais para investir presença na vida offline, amplificando o olhar, variando prazeres e colocando tempos lentos nos vínculos que me nutrem.
O ordinário pode ser povoado por poesia, veja só. É um gosto novo na boca que inaugura sensações, uma livraria aconchegante que ainda não tinha sido visitada, um cinema miúdo e calmo com a pipoca que cheira infância, um corpo em movimento que se hidrata, a leitura de descanso que arruma e desarruma perspectivas, a escrita que se adianta em pensamento para se derramar logo mais na folha em branco do diário que ainda uso. É o que não teve foto, mas teve epiderme, coração, importância.
Há algum tempo, decidi “olhar o mundo com assombro e encanto”, como diria Bia Cardella, e nunca mais voltei. Mantenho as curiosidades acesas para não perder brilho, nem minhas horas, nem saúde e nem horizontes. Há muito tempo eu vivo observando o que mingua, o que venta, o que balança, o que gera, o que cala, o que cresce, o que passa e provoca impacto corporal, recolhendo belezas. E é muitíssimo, é imenso, extraordinário, sensível.
Olha, não deixa secar as raízes de um encantamento qualquer pelo simples, que também é profundo. Deixa não. Lembre-se de ser pele encantada, músculo encantado, face encantada, vez em quando. Assim, cria-se imunidade, alguma restauração ou contatos energizados com a vida que acontece cotidianamente.
Vamos catar encanto?
"Não tenho ensinamentos a transmitir. Tomo aquele que me ouve pela mão e o levo até a janela. Abro-a e aponto para fora. Não tenho ensinamento algum, mas conduzo um diálogo." | Martin Buber