30maio
Me formei em 2017, e praticamente já estava matriculada em um curso de oratória. Queria fazer palestras gratuitas na biblioteca da minha cidade e me interessei por entender como poderia estar diante de um público, mesmo com a vergonha e insegurança que sentia.
O curso foi bastante desafiador. As mãos, a voz, a boca, tremiam. Eu era tremor inteira, minha gente. No fim, surpreendentemente, ganhei o “prêmio” da participante que mais se desenvolveu naquele grupo. Comecei a acreditar que podia.
A partir das palestras que começaram a acontecer logo após o curso, me permiti a outras possibilidades. Iniciei o trabalho no Centro de Referência de Assistência Social de Itaparica, onde cresci, e foi uma experiência gigantesca em transformações: do meu modo de ver e sentir, de estar na vida e na clínica. Nesse período, iniciei a formação em Gestalt-Terapia e também fiz contato com a Psicologia Social teoricamente, em uma pós-graduação.
Cheguei ao fim do trabalho no CRAS muito porosa. Sim. Perfurada com sensações que misturavam impotência, dores coletivas subterrâneas, vulnerabilidades rasgantes. Quase adoeci, mas não adoeci. Estava em terapia me cuidando para finalizar essa etapa profissional em dezembro de 2020. Achei que precisava esperar por dezembro.
De algum modo, o corpo queria sentir prazer naquele ano e foi justamente o fato de me aproximar desse corpo, através da dança livre, da Antiginástica e das teorias muitas, que mantive um horizonte de futuro vivo. Retrofleti bastante, inclusive. No meio do caos e da lama, veio um lótus: o Corpografias. E desde 2020, me dedico a trocar com colegas e recordar o corpo que somos: sábio, honesto, pulsátil.
Em 2021, as curiosidades imparáveis me conduziram a uma especialização em Psicologia Corporal. Recebi, neste mesmo ano, o primeiro convite para tornar-me docente. O segundo convite. O terceiro. Comecei a dar aulas on-line, em alguns cursos de pós-graduação pelo Brasil, na disciplina ‘O Trabalho Corporal em Gestalt-Terapia’.
Mais alguns anos passaram. Em 2023, desenvolvi um recurso de cartas terapêuticas sobre o corpo vivo, que já chegou em mais de 200 pessoas dentro e fora do Brasil: na gestalt-terapia, na bioenergética e no teatro.
Sigo aprendente e curiosa. Lendo muito, descansando, cuidando da minha clínica e do meu prazer em cada projeto onde me coloco. Noto que tudo isso só começou a acontecer quando parei de sentir medo de mim. É, me ofereci passagem e continuo. 💛🔥
"Não tenho ensinamentos a transmitir. Tomo aquele que me ouve pela mão e o levo até a janela. Abro-a e aponto para fora. Não tenho ensinamento algum, mas conduzo um diálogo." | Martin Buber