19janeiro
Já foi estranho pra mim falar sobre sonhos. Devido às experiências do lugar de criança com essa palavra, às vezes, fico fantasiando que as pessoas darão risada, acharão bobo o suficiente para nem terminar de escutar a outra metade da frase, ou ainda me considerarão irresponsável “diante de tantas contas para pagar”, bens materiais que “tem que ter”, roteiros existenciais criados por outros e que “deveriam” ser seguidos aos 30 e poucos anos.
Faz um tempo… decidi falar de sonho na terapia e fui tão acolhida. Senti meu sonho sendo colocado no colo, como um pedaço de vida que precisa de sopro, de peito, fartura em atenção.
Eu dizia ali na terapia: é o que me move, é o que me faz cuidar da profissão, é o que me faria responder à pergunta daquela professora marcante de outro dia: “o que te deixaria pronta para morrer?”
A gente precisa sonhar. Colocar as bravias todas dentro do pote de sonhos que seguramos com as duas mãos. Olhar quem está por perto, se relacionar com a matemática, com as faltas, com os obstáculos em desmesura, e que escapam do controle completamente, escorregando por entre dedos, suores, lágrimas, frustrações, medos e coragens.
É preciso desanestesiar os sonhos, deixando vazar as ideias, o primeiro pequeno passo, os elementos fundamentais que precisam participar da realização daquilo.
Eu não (me) deixo pra depois. Não mais. Eu torno prioridade o que eu quero. E feito bicho atrás de alimento, me interesso.
Diante de uma estrutura social que favorece poucos, querer não é suficiente e sonhar pode ser difícil. Mas querer também é passo, e sonhar pode ser o único fio que conecta à vida.
Qual é o seu sonho? Você ainda lembra? O que te move?
Não o deixe esmorecer. Ofereça chá, fôlego, paciência. Ofereça seu tempo, uma arte, uma fé. Ofereça uma teia de muitas mãos, uma rede, um ninho.
A vida está acontecendo. Que ela exista acesa por dentro, forte e calma, como lamparina no caminho.
"Não tenho ensinamentos a transmitir. Tomo aquele que me ouve pela mão e o levo até a janela. Abro-a e aponto para fora. Não tenho ensinamento algum, mas conduzo um diálogo." | Martin Buber